Fiquei ali. Deitada, a pensar. Quando dei por mim, a campainha que chamava para o almoço estava a tocar e eu apercebi-me que tinha passado a manhã inteira a pensar na minha vida. Fazia muito isso, embora, por vezes, gostasse de me esquecer de tudo o que me atormentava e cansava, tomando controlo sob mim. Levantei-me da pequena e desconfortável cama, dirigi-me para a porta, onde parei durante um minuto a pensar como iria encarar todas as pessoas. Não quis saber: rodei a fechadura e fechei a porta atrás de mim. Percorri o deserto corredor e desci dois pisos de escadas para ir para a sala de refeições. Quando abri a porta, já tinha uma fila enorme à minha frente e toda a gente comentou a minha chegada. Como poderia eu dar tanto nas vistas? Não gostava daquele facto, mas era a realidade. A senhora da cantina perguntou-me:
"Queres qual dos pratos: o vegetariano ou o normal?"
"Vegetariano, por favor." - respondi-lhe.
Não gostava muito daquela senhora. Era muito antipática para todos e tinha cara de poucos amigos. Depois de pegar no tabuleiro com a comida pensei onde me iria sentar. A sala de refeições era muito grande, mas quase todas as mesas estavam cheias. Fui sentar-me na mesa mais escondida de todas: a que fica ao lado do caixote do lixo. Comecei a comer o meu prato vegetariano: lasanha de vegetais. Passado poucos minutos, dois monitores sentaram-se a meu lado e perguntaram-me:
"Matilde, porque faltaste às actividades da manhã?"
"Eu?"
"Sim, tu."
"Bem, sentia-me um pouco mal. Decidi descansar a cabeça. Peço desculpa por ter faltado." - menti-lhes.
"Bem, não há problema!" - retorquiram.
Saíram da minha beira e eu fiquei contente por voltar a ficar sozinha. Ainda me sentia mal pelo que tinha acontecido. Toda a gente me olhava de lado enquanto segredavam e davam gargalhadas baixinho.
"As actividades da tarde vão dar início dentro de uma hora. Aproveitem o tempo que resta para fazerem o que quiserem. Encontramo-nos no jardim da frente às 14:30." - disse uma voz pelo altifalante.
Continuei a comer. Sentia-me sozinha e gostava de falar com os meus pais ou com alguém conhecido sem ser Luís. Esse sempre que me via fazia troça de mim. Saí da cantina e fui sentar-me num banco do jardim.
Olhei o céu. Estava bom tempo. O sol quente batia na minha pele branca e uma brisa leve roçava-me as maçãs do rosto. Sentia-me bem naquele momento. Deitei-me na relva a apanhar sol e adormeci.
"Matilde, acorda!"- Luís chamava-me.
"Sim?"
"Está na hora das actividades da tarde!" - disse-me. Luís era lindo. Olhos muito escuros, pela morena e cabelo loiro-acastanhado. Tinha 17 anos: a mesma idade que eu.
Levantei-me e segui-o até ao jardim da frente.
Já estavam todos reunidos, so faltávamos nós.
"Até que enfim!" - disse um monitor.
"Desculpe," - respondi-lhe - "adormeci..."
"Bom, vamos dar início ao jogo. Nós vamos jogar paintball a tarde inteira. A equipa vencedora receberá um prémio."
Começou um burburinho à volta da ideia do prémio: todos ficaram ainda mais entusiasmados com a idéia.
"Calma, primeiro temos de explicar regras extremamente importantes à cerca do jogo."
O monitor explicou as regras com muito cuidado de maneira a que todos percebessem o que era necessário seguir para termos um jogo seguro.
Os monitores distribuíram-nos por grupos. Segundo eles, o meu grupo era o mais forte porque a maioria era constituído por rapazes, o que nos dava uma vantagem em relação às outras equipas. Luís não ficou na minha equipa. Começámos a jogar. Estava a gostar imenso. O objectivo era "matar" o máximo de pessoas possível. Fui atingida. O problema foi que os monitores avisaram que NINGUÉM podia disparar a uma distância inferior a dez metros, por isso, além de ter doído muito, tive de ir à enfermaria para tratar do ferimento.
Estava deitada na cama da enfermaria, enquando o enfermeiro estava a cuidar-me da ferida aberta. Estava a odiar aquele campo de férias. Era o primeiro e o último. Só me tinham acontecido coisas más até àquele momento.
Quando o enfermeiro acabou, levantei-me e saí da enfermaria que cheirava a alcoól. Não gosto do cheiro a alcoól. Encontrei um rapaz pelo caminho que me perguntou como eu estava.
"Estou bem, obrigada!"
"Desculpa, não era minha intenção disparar, mas o dedo fugiu-me. Desculpa."
"Não faz mal. Eu estou bem." - disse-lhe com um sorriso. Senti-me bem naquele momento. Afinal alguém me tratava bem.
"Bem," - disse-me - "tenho de ir à casa de banho. Vemo-nos por aí?" - disse-me, parecendo envergonhado.
"Ah, está bem!"
Dirigi-me ao jardim de trás e deitei-me na relva enquanto olhava para o céu.
Senti uma pessoa sentar-se a meu lado, mas não queria ver quem era, por isso limitei-me a fechar os olhos e reduzir-me à minha insignificância.
"Olá, outra vez."
"Olá."
"Não apanhei o teu nome à pouco... Sou o João."
"Prazer. Eu sou a Matilde."
"Olha, sei que não te conheço, mas posso fazer-te uma pergunta?"
"Podes, claro." - disse-lhe com um ar um pouco melancólico.
"Tu tens amigos? Vejo-te sempre sozinha."
"Tenho amigos. Aqui é que não. As pessoas adoram pregar-me partidas e dizer mal de mim. Não sei que lhes fiz, mas parece que sou a vítima aqui do sítio."
"Oh. Não digas isso."
Veio um silêncio que nenhum dos dois rompeu durante um momento. A campainha para o jantar começou a tocar e João levantou-se. Logo de seguida ajudou-me a levantar.
"Obrigada" - disse-lhe.
"Posso acompanhar-te?"
"Claro!" - disse-lhe esboçando um sorriso largo.
Entrámos e eu voltei a pedir o meu prato vegetariano. Ele pediu o prato normal e fomos sentar-nos numa mesa.
Acabei de jantar muito antes do que João e fiquei a olhar para ele enquanto comia. Era moreno, tinha cabelos escuros e olhos verdes. Muito bonito. Acabou de comer e disse-me:
"Queres ir dar um passeio?"
"Pode ficar para amanhã? Não dormi muito bem esta noite..." - respondi-lhe.
"Claro," - disse parecendo desiludido - "eu levo-te ao quarto!"
"Deixa estar, eu prefiro ir sozinha."
"Está bem então. Até amanhã!"
Dirigi-me ao quarto. Vesti o pijama e lavei os dentes. Deitei-me na cama enquanto ouvia música. Estava quase a adormecer quando ouvi três pancadinhas na porta.
"Quem é?" - perguntei.
"É a Maria!"
Maria? Abri-lhe a porta.
"Sim?"
"Desculpa incomodar-te, só queria saber se tinhas um creme a mais?"
"A mais não tenho, mas posso emprestar-te o meu..."
"Não te importas?"
"Claro que não! Entra."
Entrou e fechei a porta atrás dela. Passei-lhe o creme para as mãos, Maria agradeceu e pouco tempo depois saiu.
Voltei a ouvir a voz:
"Matilde...." - chamou-me.
Desta vez, não me assustou. Luís tinha dito que era a praxe. Dei uma volta na cama e adormeci.