Segunda-feira, 27 de Junho de 2011

Destino Cruel - Parte 5

Novamente aquele silêncio que nem eu nem Luís conseguiamos quebrar. Não gostava quando isto acontecia... Começava a pensar na minha melhor amiga sempre que havia um silêncio... Não queria!
"João?"
"Matilde, diz-me." - respondeu-me com um sorriso sentido.
"Não é por mal, mas eu não quero ver o filme de terror..." - corei como nunca tinha corado antes.
"Tens a certeza? Gostava que vissemos juntos, vai ser... hum... vai ser uma experiência diferente!" 
"Diferente? Vai ser aterrorizante!"
"Matilde, tu consegues, vê comigo."
Olhei-lhe os olhos profundos. Distraí-me e caí no chão.
"Matilde, estás bem?"
"Au... doi-me o braço..."
João levantou-me e estava a levar-me ao colo quando desmaiei, pois a dor me golpeou mais intensamente.

***

Ouvia vozes ao longe. Dois homens...
"Mas ela vai ficar bem, não vai?" - a voz parecia preocupada.
"Claro! Nem sequer partir o braço."
"Obrigado pela ajuda."
Não conseguia abrir os olhos. Doia-me o braço, nunca tivera uma dor tão intensa.
João entrou no quarto e eu abri os olhos.
"Matilde! Estás bem?" - perguntou-me quase ofegante.
"Sim... Acho que sim! Onde estamos?"
"Na enfermaria do campo. Anda, eu levo-te ao quarto."
"Não é preciso eu estou bem!" - esbocei o meu melhor sorriso e saímos.

***


Entrei na sala escura. João convencera-me a ver o filme de terror que iria passar naquela noite. Grande erro! No entanto, por muito que me esforçasse não conseguia dizer-lhe que não... Ele tinha uma espécie de efeito sobre mim... Por um lado era bom, mas por outro... Hum, nem queria pensar nisso.
Sentámo-nos no chão e encostámo-nos às almafadas macias, mas duras. João cubriu-me com uma mantinha vermelha muito suave e rodeou-me os ombros com o seu braço.
O filme começou. Não tardei a ficar assustada. João ria-se baixinho da carnificina e eu tapava os olhos. Sentia-me com  vergonha e queria esconder a cara no peito dele. 
"Estás bem?" - interrogou-me ele .
"Estou mais ou menos..." - disse-lhe com a voz trémula.
João pegou-me na cabeça, encostou-a ao peito dele e tapou-me os olhos. O seu coração batia. Sabia bem ouvir aquele bater quente do seu coração... pelo menos isso fez acalmaro meu. Permaneci imovel até ao fim do filme.
Levantámo-nos e fomos dar uma volta pelo lago. Embora quente, a noite estava húmida e notava-se o cheiro a castanheiros na brisa. João olhou-me nos olhos.
"Matilde,tu és linda." 
Não pude dizer nada, pois aproximou-se de mim e beijou-me intensamente.

Quarta-feira, 22 de Junho de 2011

Destino Cruel - Parte 4

Estava ali. Deitada. A minha imaginação  voou. Tinha voado por sítios não muito agradáveis. Lembrei-me da minha melhor amiga: tinha morrido há dois anos devido a um tumor cerebral. Tornara-me assim desde a sua morte. Desde o momento em que tinha visto os seus olhos perder o brilho. Desatei a chorar. Odiava a minha vida. Odiava-a.
"Matilde... Estás bem?" - disse-me João, com a sua voz quente que mais parecia veludo.
"Eu não quero falar com ninguém neste momento... Vai-te embora!" - Fui agressiva. Ele não merecia, mas não queria que ele me visse naquele estado... Estava horrível: olhos inchados e vermelhos.
"Acho que não devo ir embora, Matilde. Não estás em condições de estar sozinha."
Deitou-se a meu lado e rodeou-me com o seu braço musculado. Por um momento, senti-me segura.
Mantivemo-nos calados.
"João, desculpa-me." - disse-lhe.
"Porquê?"
"Porque falei-te mal. Não mereces, mas eu estava perturbada..."
"Oh! Não te preocupes. estamos quites agora" - disse-me enquanto dava uma gargalhada profunda.
"Quites? Nunca me fizeste nada..."
"Fiz.. Sem querer, mas fiz. No paintball!"
"Oh! Não há problema..."
Permanecemos deitados. Sentia-me segura e não queria sair do abraço dele, mas iria ter de sair.
"Vais ver o filme de terror comigo, não vais?"
"João... Tenho medo..."
"Não faz mal. Eu protejo-te e podes esconder a cara sempre que quiseres."
Por um momento senti-me empolgada ao ouvir as palavras "Eu protejo-te."
Levantámo-nos e dirigimo-nos ao campo de férias.

Domingo, 24 de Abril de 2011

Destino Cruel - Parte 3

Acordei cedo. A luz branca estava a entrar pela janela. Senti-me bem e deixei-me estar. Ainda eram seis e meia e os monitores so mandavam acordar às oito. Liguei o meu ipod. A minha música favorita acalmava-me sempre. Não sei porquê, mas estava nervosa, irrequieta. Tinha uma hora e meia pela frente. Estava tudo silêncioso. Tinha medo. Medo de me perder nos meus pensamentos. Medo de sentir coisas que não queria sentir. Queria dormir. Não queria pensar. Andei às voltas na cama, a tentar adormecer. Não consegui. Quando dei por mim já eram sete e meia e já me podia levantar para tomar banho. Levantei-me e dirigi-me à casa de banho. Maria já estava acordada.
"Bom dia, Maria."
"Bom dia, Matilde. Mais uma vez quero agradecer-te o creme."
"Não há problema. Vou tomar banho. Até já."
Abri a porta do pequeno cubículo do chuveiro e entrei. Liguei a água fria. Sempre tomara banho de água gelada. Deixei a água escorrer-me pela cabeça. Lavei-me rápido. Espalhei creme e vesti-me. Saí do cubículo, lavei os dentes e saí da casa de banho. Senti um encontrão.
"Desculpa, Matilde." - disse-me Luís.
"Não tem mal. Bom di..."
Não tive tempo de acabar o que tinha a dizer, porque Luís virou-me as costas e começou a andar.
Fui tomar o pequeno almoço.
"Hoje, temos um dia livre. Façam o que quiserem!" - disse uma voz pelo altifalante.
Boa, um dia livre. Odeio este campo. Além de parecer ser para pessoas mais novas, davam-nos muito tempo livre. Gosto de me manter ocupada para não deixar a minha imaginação viajar por sítios que não deve.
Encontrei João, quando estava a caminho do lago.
"Matilde, bom dia!"
"Bom dia, João."
"Perguntei aos monitores se podemos sair do campo. Eles deixam-nos ir dar uma volta na aldeia. Queres vir comigo?" - perguntou-me com um sorriso largo.
"Porque não? Vamos lá" - respondi-lhe.
Saímos do portão e começámos a caminhar pela estrada de terra.
"Hoje à noite vão passar um filme de terror. Vais ver?"
"Não. Sou muito medricas, não posso ver essas coisas."
"E se eu vir cotigo, Matilde?"
"Mesmo assim... Não acho muito boa idéia, desculpa." - retorqui envergonhada.
"Ainda te vou convencer!" - disse com uma gargalhada.
Sorri. Sentia-me bem com ele. Transmitia-me uma sensação de paz e tranquilidade. Era estranho. Mal o conhecia e já me sentia tão bem com ele. Talvez por me tratar bem, ao contrário de todos?
"Queres ir comer um gelado?"
"Não trouxe dinheiro. Emprestas-me?"
"Não, eu pago-te!"
"Obrigada, João."
Diriigimo-nos à gelataria. Pedimos o meu preferido: baunilha. Sentámo-nos na única mesa livre.
"És muito calada."
"Um pouco. Sempre guardei os pensamentos para mim e não partilho muita coisa."
"Normalmente, consigo perceber as pessoas logo à primeira. Percebes o que quero dizer? Percebo os tormentos e as alegrias. A minha mãe diz que é um dom, mas eu acho que é do treino." - disse com uma gragalhada.
Sorri-lhe.
"Fala-me um pouco de ti. Onde moras, com quem?"
"Bem, moro no Alentejo, na mais pequena casa de todas, com a minha mãe, a minha avó e o meu irmão. O meu pai trabalha no estrangeiro. Quase nunca o vejo. Sou pobre. Ajudo a minha mãe em tudo que posso."
"Lamento." - disse-me parecendo triste.
"Já estou habituada. Então e tu?"
"Eu moro em Lisboa, com os meus três irmãos e o meu pai. A minha mãe morreu quando era pequeno. Não me lembro dela, mas ando sempre com uma foto sua."
"Lamento."
Riu-se e em seguida disse:
"Parece que as nossas vidas não são grande coisa." - retorquiu em tom de brincadeira.
Ri-me.
"Hoje vais ver o filme comigo."
"Depois vê-se isso..." - disse-lhe assustada.
"Olha para as horas! Já são quase horas de almoçar. Queres almoçar aqui ou no campo?"
"Vamos almoçar aqui. Não me apetece muito encarar aquelas pessoas todas."
"Eu percebo-te, mas tens de perder a vergonha."
"Não é bem uma vergonha, mas ninguém gosta de mim."
"Mentira, a minha irmã gosta."
"Tua irmã?"
"A Maria." - sorriu-me. Adorava o seu sorriso. Os seus dentes eram brancos e direitinhos. Muito parecidos com os meus.
Sorri-lhe. Não estava à espera que Maria fosse sua irmã. Começámos a almoçar. Veio um silêncio que nenhum dos dois rompeu.
Um grupo de rapazes e raparigas lá do campo entraram e começaram, de imediato, a segredar. Percebi que era sobre mim.
João levantou-se e disse-lhes:
"Vocês não têm o direito de falar dela assim. Não a conhecem de lado nenhum."
"Eu conheço." - disse Luís.
Senti-me muito mal. Levantei-me, levei as mãos à cara saí a correr enquanto chorava.
Fui esconder-me. Não queria ver ninguém. Não queria encarar ninguém. Porque eram assim para mim? Deitei-me na relva fofa e fresca. Fechei os olhos e tentei esquecer tudo. Inspirei o aroma suave das flores. Deixei a minha imaginação voar. Não queria saber.

Sábado, 23 de Abril de 2011

Destino Cruel - Parte 2

Fiquei ali. Deitada, a pensar. Quando dei por mim, a campainha que chamava para o almoço estava a tocar e eu apercebi-me que tinha passado a manhã inteira a pensar na minha vida. Fazia muito isso, embora, por vezes, gostasse de me esquecer de tudo o que me atormentava e cansava, tomando controlo sob mim. Levantei-me da pequena e desconfortável cama, dirigi-me para a porta, onde parei durante um minuto a pensar como iria encarar todas as pessoas. Não quis saber: rodei a fechadura e fechei a porta atrás de mim. Percorri o deserto corredor e desci dois pisos de escadas para ir para a sala de refeições. Quando abri a porta, já tinha uma fila enorme à minha frente e toda a gente comentou a minha chegada. Como poderia eu dar tanto nas vistas? Não gostava daquele facto, mas era a realidade. A senhora da cantina perguntou-me:
"Queres qual dos pratos: o vegetariano ou o normal?"
"Vegetariano, por favor." - respondi-lhe.
Não gostava muito daquela senhora. Era muito antipática para todos e tinha cara de poucos amigos. Depois de pegar no tabuleiro com a comida pensei onde me iria sentar. A sala de refeições era muito grande, mas quase todas as mesas estavam cheias. Fui sentar-me na mesa mais escondida de todas: a que fica ao lado do caixote do lixo. Comecei a comer o meu prato vegetariano: lasanha de vegetais. Passado poucos minutos, dois monitores sentaram-se a meu lado e perguntaram-me:
"Matilde, porque faltaste às actividades da manhã?"
"Eu?"
"Sim, tu."
"Bem, sentia-me um pouco mal. Decidi descansar a cabeça. Peço desculpa por ter faltado." - menti-lhes.
"Bem, não há problema!" - retorquiram.
Saíram da minha beira e eu fiquei contente por voltar a ficar sozinha. Ainda me sentia mal pelo que tinha acontecido. Toda a gente me olhava de lado enquanto segredavam e davam gargalhadas baixinho.
"As actividades da tarde vão dar início dentro de uma hora. Aproveitem o tempo que resta para fazerem o que quiserem. Encontramo-nos no jardim da frente às 14:30." - disse uma voz pelo altifalante.
Continuei a comer. Sentia-me sozinha e gostava de falar com os meus pais ou com alguém conhecido sem ser Luís. Esse sempre que me via fazia troça de mim. Saí da cantina e fui sentar-me num banco do jardim.
Olhei o céu. Estava bom tempo. O sol quente batia na minha pele branca e uma brisa leve roçava-me as maçãs do rosto. Sentia-me bem naquele momento. Deitei-me na relva a apanhar sol e adormeci.
"Matilde, acorda!"- Luís chamava-me.
"Sim?"
"Está na hora das actividades da tarde!" - disse-me. Luís era lindo. Olhos muito escuros, pela morena e cabelo loiro-acastanhado. Tinha 17 anos: a mesma idade que eu.
Levantei-me e segui-o até ao jardim da frente.
Já estavam todos reunidos, so faltávamos nós.
"Até que enfim!" - disse um monitor.
"Desculpe," - respondi-lhe - "adormeci..."
"Bom, vamos dar início ao jogo. Nós vamos jogar paintball a tarde inteira. A equipa vencedora receberá um prémio."
Começou um burburinho à volta da ideia do prémio: todos ficaram ainda mais entusiasmados com a idéia.
"Calma, primeiro temos de explicar regras extremamente importantes à cerca do jogo."
O monitor explicou as regras com muito cuidado de maneira a que todos percebessem o que era necessário seguir para termos um jogo seguro.
Os monitores distribuíram-nos por grupos. Segundo eles, o meu grupo era o mais forte porque a maioria era constituído por rapazes, o que nos dava uma vantagem em relação às outras equipas. Luís não ficou na minha equipa. Começámos a jogar. Estava a gostar imenso. O objectivo era "matar" o máximo de pessoas possível. Fui atingida. O problema foi que os monitores avisaram que NINGUÉM podia disparar a uma distância inferior a dez metros, por isso, além de ter doído muito, tive de ir à enfermaria para tratar do ferimento.
Estava deitada na cama da enfermaria, enquando o enfermeiro estava a cuidar-me da ferida aberta. Estava a odiar aquele campo de férias. Era o primeiro e o último. Só me tinham acontecido coisas más até àquele momento.
Quando o enfermeiro acabou, levantei-me e saí da enfermaria que cheirava a alcoól. Não gosto do cheiro a alcoól. Encontrei um rapaz pelo caminho que me perguntou como eu estava.
"Estou bem, obrigada!"
"Desculpa, não era minha intenção disparar, mas o dedo fugiu-me. Desculpa."
"Não faz mal. Eu estou bem." - disse-lhe com um sorriso. Senti-me bem naquele momento. Afinal alguém me tratava bem.
"Bem," - disse-me - "tenho de ir à casa de banho. Vemo-nos por aí?" - disse-me, parecendo envergonhado.
"Ah, está bem!"
Dirigi-me ao jardim de trás e deitei-me na relva enquanto olhava para o céu.
Senti uma pessoa sentar-se a meu lado, mas não queria ver quem era, por isso limitei-me a fechar os olhos e reduzir-me à minha insignificância.
"Olá, outra vez."
"Olá."
"Não apanhei o teu nome à pouco... Sou o João."
"Prazer. Eu sou a Matilde."
"Olha, sei que não te conheço, mas posso fazer-te uma pergunta?"
"Podes, claro." - disse-lhe com um ar um pouco melancólico.
"Tu tens amigos? Vejo-te sempre sozinha."
"Tenho amigos. Aqui é que não. As pessoas adoram pregar-me partidas e dizer mal de mim. Não sei que lhes fiz, mas parece que sou a vítima aqui do sítio."
"Oh. Não digas isso."
Veio um silêncio que nenhum dos dois rompeu durante um momento. A campainha para o jantar começou a tocar e João levantou-se. Logo de seguida ajudou-me a levantar.
"Obrigada" - disse-lhe.
"Posso acompanhar-te?"
"Claro!" - disse-lhe esboçando um sorriso largo.
Entrámos e eu voltei a pedir o meu prato vegetariano. Ele pediu o prato normal e fomos sentar-nos numa mesa.
Acabei de jantar muito antes do que João e fiquei a olhar para ele enquanto comia. Era moreno, tinha cabelos escuros e olhos verdes. Muito bonito. Acabou de comer e disse-me:
"Queres ir dar um passeio?"
"Pode ficar para amanhã? Não dormi muito bem esta noite..." - respondi-lhe.
"Claro," - disse parecendo desiludido - "eu levo-te ao quarto!"
"Deixa estar, eu prefiro ir sozinha."
"Está bem então. Até amanhã!"
Dirigi-me ao quarto. Vesti o pijama e lavei os dentes. Deitei-me na cama enquanto ouvia música. Estava quase a adormecer quando ouvi três pancadinhas na porta.
"Quem é?" - perguntei.
"É a Maria!"
Maria? Abri-lhe a porta.
"Sim?"
"Desculpa incomodar-te, só queria saber se tinhas um creme a mais?"
"A mais não tenho, mas posso emprestar-te o meu..."
"Não te importas?"
"Claro que não! Entra."
Entrou e fechei a porta atrás dela. Passei-lhe o creme para as mãos, Maria agradeceu e pouco tempo depois saiu.
Voltei a ouvir a voz:
"Matilde...." - chamou-me.
Desta vez, não me assustou. Luís tinha dito que era a praxe. Dei uma volta na cama e adormeci.

Destino Cruel - Parte 1

Não percebi o que se estava a passar comigo...
Será que estava acordada? Estaria a dormir? Só sei que ouvi algo que me despertou a atenção. Vou contar-vos:
Estava no meu quarto do campo de férias, numa noite de sábado, a tentar dormir. Estava a olhar para o tecto. Nenhuma luz estava acesa. Nenhuma porta estava aberta. Comecei a ouvir alguém chamar por mim:
"Matilde..." - dizia a voz.
Comecei a ficar assustada. Quem seria? Quem me chamava? Era uma voz fina, de mulher. Parecia estar a entrar em pânico, não sabia se havia de segui-la ou se havia de ficar ali deitada a fingir que estava a dormir, a viajar nos meus sonhos.
Decidi ficar ali parada, a pensar na minha vida... Será que iria acabar naquele dia? Não podia! Tinha de dizer a Luís que o amava, nunca tinha tido coragem de fazê-lo.
Subitamente senti um calafrio na espinha, arrependia-me de ter ido para aquela casa. O que tinha ido eu fazer? Para que fui para aquele campo de férias?
A voz continuava a chamar por mim. Assustada, respondi-lhe:
"Sim?"
"Vem comigo, tenho muita coisa para te mostrar." - disse-me.
"Não vou... O que queres de mim?" - Sempre fora uma rapariga com medo de tudo, muito piegas e medricas.
"Vem aí alguém... Adeus!"
O que fora aquilo? Seria alguém a pregar-me uma partida de muito mau gosto?
A minha respiração começou a ficar irregular, muito irregular. Fechei os olhos por um momento. Tentei esquecer tudo em que pensava, tudo o que tinha acontecido até àquele dia. Deixei a minha imaginação voar. Ir até onde quisesse ir. Comecei a imaginar-me com Luís. Os dois de mão dada numa praia deserta.
Quando dei por mim, os monitores estavam a chamar. Tinha adormecido. Decidi ficar parada, muito quieta. Não me apetecia nada levantar-me. Continuei a pensar no que se tinha passado na noite anterior... Um acontecimento um pouco estranho.
Um monitor entrou no meu quarto:
"Matilde, levanta-te!" - ordenou-me.
"Já vou!" - respondi-lhe de imediato.
Levantei-me muito rápido. Dirigi-me pelo grande corredor até entrar na casa de banho. Tomei um chuveiro, espalhei o creme no corpo e vesti-me. Desci a grande escada até ao andar de baixo onde se encontrava a sala de convívio. Não estava ninguém. Voltei a descer até à cave, para entrar na cozinha e na sala de refeições.
Mal entrei ouvi:
"Matilde..."
Era a mesma voz da noite anterior. Não acreditei no que estava a ouvir. Não vi ninguém. Saí a correr da sala de refeições e fui esconder-me na grande cozinha.
"Matilde..." - continuava.
Peguei no telemóvel e marquei o número de Luís.
"Luís, estou na cozinha vem buscar-me!" desliguei o telemóvel muito rapidamente.
Passado uns minutos vi Luís entrar na cozinha e perguntar-me:
"Matilde.. o que foi?"
"Desde ontem à noite, há uma voz a chamar-me!"
"Han?"
"A sério... ajuda-me!"
"A ti também? É para a praxe, Matilde. Não acredito que caiste numa coisa destas."
"Mas chamaram-me e está tudo deserto... Onde está toda a gente?"
"Estamos lá fora, no jardim. Vai lá ter, o pequeno almoço já foi servido há quase meia hora!"
Saiu e ouvi-o a rir-se.
Sentia-me burra. Toda a gente parecia gostar de me arreliar, de me assustar. Toda a gente sabia que sempre fora muito dramática e que me assustava com tudo. Até àquele dia, tinha caído em todas as partidas que me pregaram, mas não iria continuar assim. Iria mudar a minha atitude, estava farta que me fizessem passar por loira burra. Não tinha culpa da maneira como nasci. Nasci assim. Subi para o quarto e deitei-me na pequena cama. Só estava naquele campo há dois dias. Reparei, pela primeira vez, no meu quarto. Aos pés da cama tinha um banquinho onde podia colocar a roupa. Um tapete e um armário. A meu lado estava uma mesinha de cabeceira. Era o quarto mais pequeno em que já tinha estado. Comecei a pensar em Luís. Os nossos pais eram amigos de infância e muitas vezes estavamos juntos. Gostava dele desde o momento em que o vira, mas nunca gostara de mim e custava-me a crer que alguma vez viesse a gostar. Eu era pobre. A minha mãe e o meu pai viviam com muitas dificuldades. O meu pai trabalhava no estrangeiro e quase nunca falávamos. Os pais do Luís também não tinham muito dinheiro, mas ele vivia bem melhor que eu. Odiava não ter dinheiro. Odiava que toda a gente me arreliasse por isso. Tenho de mudar. Mas como? Como? Como?